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Domingo de Ramos: Quando o Rei entrou pela porta dos humildes

  • há 2 dias
  • 6 min de leitura


Há uma cena que atravessa vinte séculos e ainda provoca arrepios em quem a contempla com atenção. Um homem monta um jumentinho nunca antes cavalgado, desce o Monte das Oliveiras em direção a Jerusalém e é recebido por uma multidão que agita ramos, estende mantos no chão e grita aclamações reais. Dias depois, esse mesmo homem estará morto, pregado numa cruz entre dois criminosos. O Domingo de Ramos é exatamente isso: a porta paradoxal que abre a semana mais densa da história humana.


Jerusalém em tempo de Páscoa — o contexto que a maioria ignora


Para compreender o peso daquele domingo, é preciso ver Jerusalém com os olhos do século I. A cidade, normalmente habitada por cerca de 50 mil pessoas, recebia durante a Páscoa judaica (Pessach) algo entre 200 mil e 300 mil peregrinos, segundo estimativas de historiadores. Era o maior evento religioso do mundo antigo para o povo judeu — uma celebração da libertação do Egito que carregava, naquele período de ocupação romana, uma enorme carga política e messiânica.


Os romanos sabiam disso. Pôncio Pilatos, que habitualmente residia em Cesareia Marítima, vinha pessoalmente a Jerusalém durante a Páscoa com reforços militares. A tensão era palpável. Qualquer agitação popular podia ser lida como rebelião, e rebeliões eram sufocadas com sangue.


É nesse cenário explosivo que Jesus escolhe entrar em Jerusalém de forma pública, deliberada e carregada de simbolismo. Não foi um ato impulsivo. Foi uma declaração.


A profecia que ninguém podia ignorar


Quando Jesus manda buscar a jumenta e seu filhote em Betfagé, os discípulos talvez não compreendem de imediato o que está acontecendo. Mas qualquer judeu instruído reconheceria o gesto. Cerca de quinhentos anos antes, o profeta Zacarias havia escrito com precisão perturbadora:


"Exulta sem medida, ó filha de Sião! Solta gritos de alegria, ó filha de Jerusalém! Eis que vem a ti o teu Rei: Ele é justo e vitorioso, humilde, montado num jumento, num jumentinho, filho de jumenta." (Zc 9,9)

Jesus estava, literalmente, citando as Escrituras com o próprio corpo.


A escolha do animal não era acidental nem simples. Na cultura do Oriente Médio antigo, reis e generais entravam nas cidades montados em cavalos quando vinham em missão de guerra e conquista. O jumento, ao contrário, era o animal da paz, da humildade, do serviço. Salomão havia sido levado a sua unção como rei montado numa mula (1Rs 1,33). Ao escolher o jumentinho, Jesus afirmava sua realeza ao mesmo tempo em que subvertia completamente a ideia de poder que aquela multidão carregava na cabeça. Era um rei — mas um rei de um tipo que o mundo ainda não havia visto.


Os ramos de palmeira e o grito de Hosana


O Evangelho de João (12,13) é o único que menciona especificamente ramos de palmeira. Os demais falam em "ramos das árvores" de modo mais genérico. Esse detalhe importa porque os ramos de palmeira possuíam, no judaísmo, um significado político muito claro: eram símbolo nacional, usados em celebrações de vitórias militares e na festa de Sucot. Cerca de dois séculos antes, quando Simão Macabeu libertou a cidadela de Jerusalém dos gregos, o povo o recebeu com ramos de palmeira e hinos de louvor (1Mac 13,51). A moeda judaica daquele período trazia a palmeira como emblema da nação. A multidão, portanto, estava fazendo uma afirmação política. Estava recebendo Jesus como o libertador esperado, o Messias guerreiro que viria expulsar os romanos e restaurar o reino de Davi.


O grito "Hosana" reforça isso. A palavra vem do hebraico hoshia-na, que significa literalmente "salva agora" ou "salva, por favor" — uma súplica de salvação dirigida a Deus ou ao rei. No Salmo 118, utilizado justamente nas peregrinações à festa da Páscoa, aparece a expressão: "Hosana! Bendito o que vem em nome do Senhor!" A multidão estava usando a liturgia da própria Páscoa para aclamar Jesus. Era ao mesmo tempo oração, aclamação política e confissão de fé.


Lucas acrescenta um detalhe comovente: quando os fariseus pedem que Jesus mande os discípulos se calar, Ele responde: "Eu lhes digo que, se eles se calarem, as próprias pedras gritarão." (Lc 19,40). Era um momento que o próprio cosmos não conseguia conter em silêncio.


O choro que a maioria esquece


Quase sempre nos concentramos na entrada triunfal e nos esquecemos do que acontece logo em seguida. Lucas relata que, ao avistar a cidade de Jerusalém, Jesus parou e chorou.

"Quando se aproximou e viu a cidade, Jesus chorou por ela e disse: 'Se ao menos neste dia tu conhecesses o que traz a paz! Mas agora isso está oculto aos teus olhos.'" (Lc 19,41-42)

É um dos momentos mais humanamente devastadores de todo o Evangelho. No auge da aclamação popular, com mantos estendidos ao Seu redor e gritos de Hosana ecoando pelo vale, Jesus chora. Chora porque vê além da festa. Vê a destruição que viria sobre Jerusalém em 70 d.C., quando as legiões romanas arrasariam o Templo e a cidade. Vê que a multidão que O aclama ainda não compreendeu o tipo de salvação que Ele veio trazer. A alegria do Domingo de Ramos sempre carrega, para quem lê com atenção, uma sombra de tristeza profética.


Como a Igreja Católica celebra esse dia — história e liturgia


A celebração litúrgica do Domingo de Ramos tem uma história rica e complexa. Os registros mais antigos de uma procissão com ramos em Jerusalém datam do século IV, descritos pela peregrina hispânica Egéria em seu relato de viagem escrito por volta de 381-384 d.C. Ela descreve com detalhes como a comunidade cristã de Jerusalém saía do Monte das Oliveiras em procissão até a cidade, com o bispo representando Cristo, enquanto todos carregavam ramos de oliveira e palmeira cantando o Hosana.


Essa tradição de Jerusalém foi se espalhando pelo Ocidente lentamente. No século VII, já havia referências à bênção dos ramos em igrejas do norte da Europa. Mas foi sobretudo a partir do século IX que a procissão com ramos se consolidou como prática litúrgica universal no Ocidente.


A reforma do Missal Romano de 1955, conduzida por Pio XII, reorganizou de forma significativa a Semana Santa. Antes dessa reforma, o rito dos ramos havia adquirido ao longo dos séculos uma complexidade quase paralela à própria Missa, com bênçãos, leituras e cânticos próprios que se sobrepunham à celebração principal. Pio XII simplificou e unificou o rito, integrando melhor a procissão à Missa do dia.


Hoje, na forma ordinária do rito romano, a celebração começa com a bênção dos ramos e a procissão de entrada — ou, quando isso não é possível, com uma entrada solene ou ao menos uma memória simples do evento. O canto do Hosana ressoa, os ramos são distribuídos aos fiéis, e então a Missa segue com a longa leitura da Paixão segundo um dos evangelistas sinóticos, alternando ao longo dos três anos do ciclo litúrgico entre Mateus, Marcos e Lucas.


Os ramos — o que fazer com eles depois?


Uma das curiosidades mais belas da tradição católica envolve o destino dos ramos após a celebração. Em muitas culturas e países, os fiéis levam os ramos para casa e os colocam atrás de crucifixos, imagens ou em lugares de destaque. Há uma tradição muito difundida, especialmente no Brasil e em países ibéricos, de guardar o ramo bento durante todo o ano como proteção para o lar. Mas o destino litúrgico oficial dos ramos é ainda mais significativo: eles são guardados pela paróquia e, no ano seguinte, queimados para produzir as cinzas utilizadas na Quarta-feira de Cinzas.


Há uma poesia teológica profunda nesse ciclo. Os ramos que hoje aclamam o Rei ressuscitarão no próximo ano como cinzas sobre a testa dos penitentes, com as palavras "lembra-te de que és pó e ao pó voltarás". A glória de hoje se torna o memento mori de amanhã — e ambos apontam para o mesmo mistério pascal.


O paradoxo central dessa festa


O Domingo de Ramos é, talvez, a celebração mais paradoxal de todo o ano litúrgico. Começa com alegria e termina com a narração da Paixão. Aclama um rei que será executado como criminoso. Usa linguagem de vitória para anunciar uma derrota aparente. A multidão que grita Hosana representa, de certa forma, todos nós: pessoas que reconhecem em Jesus algo extraordinário, mas que ainda precisam compreender o que isso significa de verdade.


A Igreja começa a Semana Santa deliberadamente com esse paradoxo porque quer que o fiel carregue as duas realidades ao mesmo tempo durante os dias que se seguem. O ramo na mão e a Paixão nos ouvidos. A aclamação na boca e a sombra da Cruz no horizonte.


Numa época em que a fé frequentemente busca apenas o consolador e o triunfante, o Domingo de Ramos insiste em apresentar um Deus que entra pela porta dos humildes, que chora diante da cidade que O rejeita, e que aceita a coroa de glória que o mundo Lhe oferece sabendo que em poucos dias essa mesma aclamação se converterá em condenação. É exatamente por isso que essa liturgia ainda comove. Porque é verdadeira.



"Bendito o que vem em nome do Senhor! Hosana nas alturas!" — Mt 21,9





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