O Santo Sacrifício da Missa: Da Escolástica Tardia ao Concílio Vaticano II
- Rodrigo M. de Abreu

- 13 de dez. de 2025
- 7 min de leitura

A doutrina católica sobre a Santa Missa como verdadeiro sacrifício representa uma das verdades mais sublimes e centrais da fé católica. Desde o século XV até o Concílio Vaticano II, a Igreja aprofundou, defendeu e proclamou esta realidade sagrada com crescente clareza, especialmente diante dos ataques protestantes e da necessidade de formar os fiéis na verdadeira compreensão do mistério eucarístico.
O Século XV: A Teologia Escolástica e a Piedade Medieval
No final da Idade Média, a compreensão da Missa como sacrifício estava profundamente enraizada na vida católica. Os teólogos escolásticos, seguindo Santo Tomás de Aquino, ensinavam que a Missa não é uma mera representação simbólica, mas a renovação sacramental e incruenta do sacrifício da Cruz.
A teologia tomista estabelecia claramente:
A Missa é um verdadeiro sacrifício propiciatório (que expia pecados);
Cristo é simultaneamente Sacerdote e Vítima;
Há identidade substancial entre o sacrifício do Calvário e o sacrifício do altar;
A diferença está apenas na modalidade: cruenta (sangrenta) no Calvário, incruenta (não sangrenta) no altar.
A piedade popular enfatizava a Missa como o ato supremo de adoração. As "Missas privadas" (celebradas sem a presença de fiéis) eram comuns, e havia grande devoção às Missas votivas e às Missas pelos defuntos, refletindo a fé no valor propiciatório e satisfatório do Santo Sacrifício.
A Ruptura Protestante (Século XVI): O Ataque ao Sacrifício da Missa
A Reforma Protestante representou o mais grave ataque à doutrina católica do Santo Sacrifício. Martinho Lutero e os reformadores rejeitaram veementemente a Missa como sacrifício, por razões teológicas que tocavam o coração mesmo da fé:
As Objeções Protestantes
Martinho Lutero (1483-1546) atacou a Missa sacrificial com particular virulência:
Declarou que a Missa não é um sacrifício, mas apenas uma promessa e testamento de Cristo;
Afirmou que considerar a Missa como sacrifício ofende a suficiência do sacrifício único de Cristo na Cruz;
Rejeitou o sacerdócio ministerial ordenado, substituindo-o pelo sacerdócio universal dos crentes;
Negou a Transubstanciação, adotando a consubstanciação.
João Calvino foi ainda mais radical:
Chamou a Missa católica de "a abominação mais execrável";
Afirmou que a doutrina do sacrifício da Missa blasfema contra Cristo;
Defendeu que a Ceia do Senhor é apenas memorial simbólico.
Os Fundamentos da Rejeição
Os reformadores argumentavam:
Cristo ofereceu-se uma vez por todas (Hebreus 10, 10 - 14) - portanto, não pode haver repetição do sacrifício;
A Missa católica implica que o sacrifício de Cristo foi insuficiente;
A ideia de sacerdócio ministerial contradiz o sacerdócio de todos os crentes;
A Missa tornou-se uma "obra humana" que busca méritos, contradizendo a salvação pela fé somente (sola fide).
O Concílio de Trento (1545-1563): A Defesa Dogmática
Diante desta crise sem precedentes, a Igreja Católica reuniu-se no Concílio de Trento, que produziu a formulação mais precisa e autoritativa sobre o Santo Sacrifício da Missa.
A Sessão XXII (1562): Doutrina sobre o Santo Sacrifício da Missa
O Concílio proclamou solenemente:
"Se alguém disser que na Missa não se oferece a Deus um verdadeiro e próprio sacrifício, ou que o oferecimento não é senão dar-nos Cristo para comer, seja anátema." (Cânon 1)
Pontos Dogmáticos Fundamentais:
1. A Missa é Verdadeiro Sacrifício Propiciatório: Trento ensinou que a Missa é um sacrifício visível (como requer a natureza humana), através do qual se torna presente o sacrifício cruento realizado no Calvário. Não é uma mera comemoração ou refeição comum;
2. Identidade com o Sacrifício da Cruz: O Concílio afirmou categoricamente: "É uma única e mesma vítima, o mesmo que agora se oferece pelo ministério dos sacerdotes, que então se ofereceu a si mesmo na cruz, sendo apenas diferente o modo de oferecer-se." A Missa não repete o Calvário (o que seria impossível e blasfemo), mas o re-apresenta sacramentalmente. É o mesmo sacrifício aplicado através dos séculos.
3. Valor Propiciatório, Impetratatório e Satisfatório: Trento definiu que a Missa tem valor:
Propiciatório: expia pecados e aplaca a ira divina;
Impetratatório: obtém graças;
Satisfatório: satisfaz pela pena temporal devida aos pecados;
Eucarístico: rende adoração e ação de graças a Deus.
4. Aplicação pelos Vivos e Defuntos: "Este sacrifício é verdadeiramente propiciatório… oferecido não só pelos pecados, penas, satisfações e outras necessidades dos fiéis vivos, mas também pelos que morreram em Cristo e não estão plenamente purificados." (Doutrina, Cap. 2);
5. O Sacerdócio Ministerial: Trento reafirmou que apenas os sacerdotes validamente ordenados podem consagrar e oferecer o Santo Sacrifício, rejeitando a doutrina protestante do sacerdócio universal como suficiente.
Reformas Litúrgicas de Trento
São Pio V promulgou o Missal Romano (1570), unificando a liturgia latina e garantindo:
A rubrica precisa das cerimônias;
A estrutura do Cânon Romano (anáfora);
A ênfase no caráter sacrificial através de orações e gestos;
O uso do latim como língua sagrada.
Do Século XVII ao XIX: Desenvolvimento e Aprofundamento
A Teologia Pós-Tridentina
Os grandes teólogos católicos dos séculos seguintes aprofundaram a doutrina:
São Roberto Belarmino (1542-1621) escreveu extensas apologias defendendo o caráter sacrificial da Missa contra os protestantes;
São Francisco de Sales (1567-1622) enfatizou na piedade popular o valor infinito da Missa: "A Santa Missa vale mais que todos os tesouros do mundo";
São Leonardo de Porto Maurício (1676-1751) pregou incansavelmente sobre as "maravilhas da Santa Missa", ensinando que cada Missa tem valor infinito por ser o próprio sacrifício de Cristo.
A Piedade Eucarística
Estes séculos viram um florescimento da devoção eucarística:
Multiplicação das Missas votivas para intenções específicas;
Desenvolvimento da Adoração Eucarística perpétua;
Ênfase nas Missas gregorianas (30 Missas consecutivas pelos defuntos);
Crescimento das Procissões de Corpus Christi.
O Movimento Litúrgico (Século XIX-XX)
Dom Prosper Guéranger (1805-1875), abade de Solesmes, iniciou o Movimento Litúrgico, buscando:
Maior participação dos fiéis na liturgia;
Compreensão mais profunda dos ritos;
Retorno às fontes patrísticas;
Renovação espiritual através da liturgia.
Este movimento preparou o terreno para as reformas do século XX, embora mantendo firmemente a teologia sacrificial.
O Século XX: Rumo ao Vaticano II
Pio XII e a "Mediator Dei" (1947)
A encíclica "Mediator Dei" de Pio XII foi o documento mais importante sobre liturgia antes do Vaticano II. Nela, o Papa:
Reafirmou a doutrina tradicional: "O augusto sacrifício do altar não é uma pura e simples comemoração da Paixão e Morte de Jesus Cristo, mas um verdadeiro e próprio sacrifício, no qual, imolando-se incruentamente, o Sumo Sacerdote faz aquilo que fez uma vez sobre a cruz."
Aprofundou a participação dos fiéis: Embora a Missa seja essencialmente o ato do sacerdote agindo in persona Christi, os fiéis não são "espectadores mudos", mas oferecem o sacrifício "por mãos do sacerdote" e se oferecem a si mesmos como vítimas espirituais.
Destacou a dupla dimensão:
Dimensão vertical: sacrifício oferecido a Deus Pai
Dimensão horizontal: banquete sagrado que une os fiéis
A Teologia Pré-Conciliar
Grandes teólogos prepararam o Vaticano II:
Odo Casel (1886-1948) desenvolveu a "teologia dos mistérios", mostrando como a Missa torna presentes (não repete) os mistérios salvíficos de Cristo;
Maurice de la Taille (1872-1933) distinguiu entre oblação (oferecimento) e imolação (destruição da vítima): Cristo foi imolado uma vez no Calvário, mas se oferece continuamente na Missa.
O Concílio Vaticano II (1962-1965): Renovação na Continuidade
A Constituição "Sacrosanctum Concilium" (1963)
O Vaticano II não abandonou a doutrina do sacrifício, mas a recontextualizou dentro de uma visão mais ampla e pastoral:
Manteve a doutrina essencial: "Nosso Salvador, na última Ceia, na noite em que foi entregue, instituiu o Sacrifício Eucarístico do seu Corpo e Sangue para perpetuar pelo decorrer dos séculos, até Ele voltar, o Sacrifício da Cruz." (SC 47)
Ampliou a compreensão: A Constituição apresentou a Missa como:
Memorial (anamnesis): torna presente o mistério pascal;
Sacrifício: renovação sacramental do Calvário;
Banquete pascal: participação no Corpo de Cristo;
Ação de toda a comunidade: sacerdote e fiéis, cada qual segundo seu modo.
Mudanças Litúrgicas Mantendo o Sacrifício
As reformas do Vaticano II incluíram:
Uso das línguas vernáculas (mantendo o latim como opção);
Altar versus populum (face ao povo) em muitos lugares;
Maior participação ativa dos fiéis nas respostas e cantos;
Reforma do Missal Romano (1970) por Paulo VI;
Enriquecimento das leituras bíblicas.
Porém, manteve-se:
A estrutura sacrificial da Missa;
O Cânon Romano (agora Oração Eucarística I);
A teologia da Transubstanciação;
O sacerdócio ministerial ordenado;
O caráter propiciatório do sacrifício.
Paulo VI: "Mysterium Fidei" (1965)
Diante de algumas interpretações errôneas pós-conciliares, Paulo VI publicou esta encíclica reafirmando:
A presença real, verdadeira e substancial de Cristo;
A Transubstanciação como termo mais apropriado;
O caráter sacrificial da Missa;
A adoração devida ao Santíssimo Sacramento.
A Teologia do Sacrifício: Síntese Doutrinal
O Que Significa "Sacrifício"?
Na teologia católica, sacrifício é:
Oferecimento de um dom a Deus pelo sacerdote;
Reconhecimento do domínio supremo de Deus;
Expiação pelos pecados (quando propiciatório);
Destruição ou transformação da vítima oferecida.
Como a Missa é Sacrifício?
1. Cristo é o Sacerdote Principal: O padre age in persona Christi capitis (na pessoa de Cristo Cabeça). É Cristo quem se oferece através do ministério do sacerdote ordenado;
2. Cristo é a Vítima: O mesmo Cristo que se ofereceu no Calvário se oferece no altar. Não há duas vítimas, mas uma só;
3. A Consagração é o Momento Sacrificial: A consagração separada do pão e do vinho (Corpo e Sangue) representa sacramentalmente a separação cruenta que ocorreu no Calvário, quando o Sangue de Cristo foi derramado;
4. Aplicação dos Frutos do Calvário: A Missa não adiciona nada ao Calvário (que tem valor infinito), mas aplica seus frutos às almas através dos séculos.
Os Quatro Fins do Sacrifício
A tradição ensina que a Missa, como todo sacrifício perfeito, tem quatro fins:
Latrêutico (adoração): Culto supremo devido só a Deus;
Eucarístico (ação de graças): Gratidão pelos benefícios divinos;
Propiciatório (expiação): Perdão dos pecados e aplacamento da justiça divina;
Impetratatório (súplica): Obtenção de graças e bênçãos.
A Continuidade Doutrinal: Do Século XV ao Século XX
Apesar das aparentes mudanças, especialmente litúrgicas, há uma perfeita continuidade doutrinal:
Século XV: A teologia escolástica estabelece os fundamentos;
Século XVI: Trento define dogmaticamente contra os protestantes;
Séculos XVII-XIX: Aprofundamento teológico e desenvolvimento devocional;
Século XX: Vaticano II renova a liturgia mantendo a doutrina sacrificial.
A fé católica sempre proclamou: A Missa é o Calvário tornado presente de modo incruento.
Conclusão: O Tesouro Inesgotável
Do século XV ao Vaticano II, a Igreja guardou como tesouro preciosíssimo a verdade do Santo Sacrifício da Missa. Contra ventos e marés, contra heresias e reducionismos, a Esposa de Cristo manteve firme esta doutrina sublime:
Cada Missa é o próprio sacrifício do Calvário, tornado presente sacramentalmente. Cada altar é o Gólgota. Cada consagração é o "Consummatum est". Cada comunhão é participação na Vítima imolada e ressuscitada.
São Pio de Pietrelcina dizia: "Mais facilmente subsistiria o mundo sem o sol do que sem a Santa Missa." São Leonardo de Porto Maurício afirmava: "Se os anjos pudessem ter inveja, invejariam-nos por duas coisas: comungar e sofrer por Cristo."
Que nós, católicos do século XXI, jamais percamos esta consciência. Que cada Missa seja para nós o que sempre foi: o supremo ato de adoração, o memorial eficaz da Paixão, o banquete sacrificial que nos une a Cristo e nos conduz ao Céu.
"Ó sacrum convivium, in quo Christus sumitur!" ("Ó sagrado banquete, no qual Cristo é recebido!")
CONTINUA...
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